Crítica: Turista Espacial (1996, de Coline Serreau)


[Utopia]
Lugar ou estado ideal, de completa felicidade e harmonia entre os indivíduos. 
(Fonte: Dicionário)

Depois de entender o significado da palavra utopia e, consequentemente, entender o que significa quando alguém pronuncia a frase "Isto é um mundo utópico!", e também de ter consciência de que não é algo impossível, vamos à crítica. 

Cá temos um filme que bebera então da fonte de tudo que pode nos remeter a um mundo utópico, um filme que traz a ideia do que seria um mundo ideal, ilustrado pelas convicções da nossa diretora e roteirista, Coline Serreau, que também interpreta a personagem principal, Mila. É abordado de forma filosófica e bem humorada temas que levam um povo à evolução, como a espiritualidade ativista, sustentabilidade, anti conformismo, ecologia, feminismo, veganismo, humanismo, pacifismo, entre outros. 


Obviamente o filme não tratará profundamente de nenhum desses temas, o que ele propõe é a reflexão a respeito. E isso ele consegue e muito bem, principalmente em mostrar, tanto no filme como em nossas próprias atitudes, o que estamos fazendo de errado até nos mínimos detalhes. E você se pegará questionando em como é possível que uma utopia idealizada há mais de 20 anos ainda não teve sequer algum reflexo em nossa atual realidade, e em como um filme tão antigo possa ser retrato de mundo a ser seguido; ou seja, estamos estagnados no tempo, nos matando aos poucos e achando isso bonito. Como eu disse, utopia não é sinônimo de impossível mas, sim, de não pensar apenas em si próprio. Será esse o problema dos seres humanos??? É tão difícil assim pensar e agir por alguém, além de si mesmo??? 

No início do filme veremos uma reunião de um planeta em que seus habitantes vivem em perfeita harmonia entre si e a natureza, e de tempos em tempos voluntários são enviados a outros planetas para observá-los ou mesmo ajudá-los em seu processo evolutivo. Mas há 200 anos ninguém quer ir para o planeta Terra, pois lá as pessoas são muito pobres de espírito, pregam a lei do mais forte, precisando de sempre ter alguém no comando e manter algum tipo de hierarquia. Fazendo tudo e agindo sempre da pior forma possível por conta de um papel quadrado (dinheiro), que é necessário para tudo, incluindo para a mais básica e fundamental necessidade, se alimentar.


Depois de muito debaterem e citarem os motivos de não quererem ir à Terra, uma senhora, Mila, acaba se voluntariando por razões pessoais. Ao aterrizar na Terra, na cidade de Paris, França, Mila instantaneamente já começa a sofrer com a poluição, além da água impura e a "comida" lhe fazerem adoecer. Detalhe para as cenas em que ela passa em frente a um açougue e fica horrorizada com a "exposição de cadáveres" que presencia, explicando, mais tarde, o tipo de alimentação e hábitos saudáveis de seu povo, que os fazem viver para além dos 100 anos; e depois a cena em que está em um museu, avista uma escultura de Jesus crucificado e o reconhece, falando para si própria que ele ter sido morto foi o motivo pelo qual não voltou, dando a entender que Jesus foi um habitante do mesmo planeta da nossa turista espacial, qual um dia esteve na condição de voluntário também, e que não voltou porque fora morto.


Conforme vai caminhando pela Terra, observando a forma retrógrada com que todos ainda estão vivendo, fica cada vez mais assustada, não entendendo como viver de tal modo ainda é possível. Esporadicamente Mila mantém contato com seus filhos, por telepatia, e lhes conta tudo que está vivenciando naquele planeta que mais lhe parece um inferno, cheio de pessoas arrogantes, mal humoradas, prepotentes, onde não existe ar puro para respirar e precisa-se pagar até para beber a pior água que se pode oferecer.


Felizmente as pessoas do planeta de Mila possuem certos dons que são postos em prática na Terra, e sua breve visita cria um certo impacto na vida daqueles que foram atingidos pela "bondade". Afinal, alguém precisa começar com o boicote, que nada mais é do que parar de dar moral e ou consumir coisas que não fazem bem à vida, tanto própria, quanto a dos outros e de outras espécies. Parece tudo muito difícil, mas se tem algo que não podemos negar, é que a união faz a força.

No fim da viagem, Mila retorna ao seu querido planeta com algumas surpresas e sensação de dever cumprido; e nós, espectadores, ficamos com nuvens e mais nuvens de pensamentos repletos de reflexões em cima de nossas cabeças ao acabar o filme. E essa é uma das melhores sensações e presentes que um filme pode nos proporcionar!


Turista Espacial não é um filme de grandes efeitos especiais e nem dono de uma atuação verossímil como estamos acostumados com o cinema atual. Coline Serreau trabalhou muito com o teatro e trouxe para essa película atuações teatrais, quais complementam o teor do filme, sendo então, intencional, o que alguns chamam de atuações fracas. Além disso, Coline, influenciada por sua trajetória de vida pessoal, traz um pouco da mágica circense para o filme, conectando às práticas malabáricas como um dos estilos de vida saudável. 


A grosso modo, Turista Espacial é um filme que deveria ser visto por todos sem quaisquer tipos de julgamentos prévios, no entanto, para contrariar, eu deixo a vocês a seguinte pergunta: Por que falamos em voz alta as soluções para os nossos problemas, e continuamos nadando em sentido contrário ao que acreditamos? 


Título Original: La Belle Verte

Direção: Coline Serreau

Elenco: Coline Serreau, Marion Cotillard, Vincent Lindon, James Thierree, Claire Keim, Samuel Tasinaje, Catherine Samie, Paul Crauchet, Patrick Timsit, Philippine Leroy-Beaulieu, Yolande Moreau, Didier Flamand e mais.

Sinopse: Existe um planeta em que seus habitantes evoluíram a tal ponto que vivem em perfeita harmonia com a natureza. De tempos em tempos, alguns deles fazem excursões a outros planetas, seja para observá-los ou mesmo ajudá-los em seu processo evolutivo. Curiosamente, há 200 anos que ninguém quer vir para o planeta Terra. Até que um dia, por razões pessoais, uma mulher decide se voluntariar. Ela aterrissa em Paris. O filme aborda de maneira humorada temas variados como a fábula filosófica, a espiritualidade ativista, a sustentabilidade, o anti-conformismo, a ecologia, o feminismo, o humanismo, o pacifismo entre outros. Inspirador e divertido.

Trailer:

HELEN SANTOS

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