Crítica: Maria Madalena (2018, de Garth Davis)



Quando acompanhei a notícia de que seria lançado um filme sobre Maria Madalena com um viés mais feminista e abordando de forma mais verdadeira sua vida, logo me vi com a curiosidade aguçada, pois em tempos como os que estamos vivendo, em que cada vez mais o feminismo é posto em pauta e a causa cresce e avança (mesmo que a passos menores), um filme como este é de enorme importância. Infelizmente, acredito que fui com muita sede ao pote...

Contrariando tudo aquilo que já sabemos (ou pelo menos pensamos saber) sobre a icônica personagem bíblica, o filme inicia mostrando que Maria Madalena (Rooney Mara) era uma mulher diferente. Ela não era simplesmente mais uma que se casaria, teria filhos, seria uma mulher do lar. Nesta época, o comportamento de Maria Madalena era totalmente repudiado pela sociedade e pela família, extremamente patriarcais, sendo até mesmo interpretado como possessão de demônios. Mas Maria Madalena não se importava com este dogma. Algo nela a chamava para uma causa maior, sendo catalisado após seu encontro com Jesus.

A partir de então, mesmo com o desprezo de sua família e ciúmes e/ou machismo dos demais apóstolos, principalmente de Pedro (Chiwetel Ejiofor), Maria Madalena parte para sua jornada ao lado de Cristo, sendo batizada por ele e apoiando-o em suas pregações e decisões.



Há algo de muito forte na história que nos é contada. Algo sutil, que fora magistralmente construído pelo conjunto direção + roteiro + fotografia + atuações. E acaba por instigar, por fazer refletir. Entretanto, principalmente pelo fato de o roteiro ser feito por duas mulheres talentosas (Helen Edmundson e Philippa Goslett), eu me vi insatisfeita com a história em si. Maria Madalena é e deveria ser a protagonista, mas Jesus, magistralmente interpretado por Joaquin Phoenix, acaba roubando muitos momentos pra si. É complicado, pois pelo fato de ser Jesus, fica difícil fazer com que ele não seja um ponto de destaque, e mesmo que o caminho aqui seja mais da sutileza, com foco maior em olhares e reações, senti que o filme poderia ter focado mais na persona de Maria Madalena.

O longa não deixa de ser fluido e poético. A interação entre Joaquin Phoenix e Rooney Mara é perfeita, com uma química incrível. Tendo já trabalhado juntos em Ela (2013), após as gravações deste filme engataram um namoro, então já dá para perceber que a química é realmente forte.



Acerca das atuações, pontuo outro quesito negativo. Rooney Mara está impecável, os closes em seu rosto, mostrando mais suas emoções e seus olhares, são certeiros, contudo, o tempo todo me perguntava se ela de fato foi uma escolha acertada de elenco. Sempre me pegava pensando em outra atriz com mais presença para este papel, principalmente pela linha que o filme pretende seguir. Talvez o diretor, que já havia trabalhado com Mara em Lion: Uma Jornada Para Casa (2016), tenha visto nela mais potencial do que ela realmente tem e/ou consegue transmitir.

Acerca de Jesus, mesmo não sendo religiosa e com pouca crença para com o cristianismo, sempre me peguei pensando que Jesus seria exatamente o que Joaquin Phoenix apresentou em tela: com um semblante fechado, sombrio, preocupado, como o de quem carrega todo o peso do mundo nas costas (literalmente). Acredito que a comparação com A Paixão de Cristo (2004) seja inevitável, mas como dito, a sutileza aqui é a palavra de ordem, algo totalmente diferente do filme de Mel Gibson, em que objetivo era, de fato, chocar visualmente. Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão) entrega um Pedro questionador e duro, assim como o apóstolo que conhecemos das escrituras e por fim, temos Tahar Rahim, como uma grata surpresa, interpretando Judas, tendo aqui uma motivação muito mais palpável e ‘justificável’ (até mais do que na própria Bíblia) para sua traição para com o Messias.



Um destaque fica para a cena em que Jesus prega para um grande grupo de mulheres, arrebanhando algumas seguidoras e ainda quando Maria, mesmo rejeitada pelos outros apóstolos, após a ressurreição de Cristo, segue para espalhar o evangelho, como Jesus assim a orientara, juntamente com as mulheres que cruzaram sua vida, dentre elas Maria, mãe de Jesus.

Em suma, Maria Madalena não deixa de ser um filme importante, principalmente pelo trato de toda a história, sabendo mostrar a vida da apóstola dos apóstolos (reconhecimento dado, convenientemente, pela Igreja Católica apenas em 2016) de maneira delicada e de certa forma, poderosa.



Título Original: Mary Magdalene

Direção: Garth Davis

Elenco: Rooney Mara, Joaquin Phoenix, Chiwetel Ejiofor, Tahar Rahim, Charles Babalola, Hadas Yaron, Michael Moshonov, Shira Haas, Tawfeek Barhom, Uri Gavriel, Zohar Shtrauss, Ariane Labed, Denis Ménochet, Lubna Azabal, Tchéky Karyo, Ryan Corr, Tsahi Halevi, David Schofield, Hadas Yaron, Roy Assaf, Theo Theodoridis, Sarah-Sofie Boussnina.

Sinopse: A história de uma das figuras mais enigmáticas e incompreendidas da história bíblica: Maria Madalena (Rooney Mara). Em busca de uma nova maneira de viver, contrariando as pressões da sociedade, sua família e o machismo de alguns apóstolos, a jovem pescadora junta-se a Jesus de Nazaré (Joaquin Phoenix) em sua incansável missão de propagar a fé.

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Eduarda Souza

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