Crítica: How To Talk To Girls At Parties (2017, de John Cameron Mitchell)


John Cameron Mitchell, responsável pelo polêmico Shortbus e Hedwig and The Angry Inch, dirige How To Talk To Girls At Parties, distribuído pela A24, cujo o elenco principal é formado por Alex Sharp, Elle Faning e Nicole Kidman. O filme é uma adaptação do conto homônimo do premiado autor Neil Gaiman (Deuses Americanos e Sandman), que em 2017 foi adaptado no formato de uma graphic novel, pelos quadrinistas brasileiros Gabriel Bá e Fábio Moon.
Durante uma entrevista à Build Series, Cameron disse que estava hesitante com o projeto, pois queria fazer sua própria história, mas acabou percebendo que o conto oferecia um potencial a ser extrapolado e explorado.  


O longa conta a história de Enn (Alex Sharp) e seus dois melhores amigos, John (Ethan Lawrence) e Vic (Abraham Lewis),  que vivem envoltos pelo cenário punk dos anos 70, na Inglaterra. Entrando, sorrateiramente em festas, certa noite eles acabam dentro de uma festa conduzida por alienígenas que estão visitando a Terra para completar um rito de passagem bizarro. No decorrer da história, Enn acaba conhecendo Zan (Elle Fanning), uma alienígena em tour pela galáxia que rebela-se contra as normas padrões que lhe foram ensinadas e separa-se de seu grupo em busca de conhecer o mundo por uma nova perspectiva.


A figura rebelde de Zan revela sua inserção obrigatória em uma pequena e dominante sociedade pragmática que dialoga por um discurso passivo, no entanto, rigoroso, de individualidade e obediência. A temática sci-fi do filme leva a uma história descompromissada e atrativa, mas  falha ao tentar estabelecer um roteiro que une a ação de escapar às normas usuais do bom senso e dos temas pessoais que tenta abordar, como a liberdade, e a atitude de desafiar autoridades. Zan torna-se um símbolo das restrições e do desejo de quebrá-las para libertar-se, enquanto Enn, um jovem tímido e rebelde que abomina o conformismo, revela-se como a liberdade, segundo o pensamento imediato. 

O filme apresenta um ritmo elétrico com sucessão de temas fortes e fracos que se alternam com intervalos regulares junto ao reforço visual extravagante e sons atípicos, mas que mesmo assim não consegue prender a atenção e aos poucos torna-se cansativo e enjoativo. O ideal 'punk' é constante e torna-se base fundamental para a filosofia do longa; essa história adolescente de amor revela-se um 'coming of age' bizarro, que tenta, o tempo todo, entregar a ideia de que o cenário punk é como um vírus que auxilia qualquer um a adaptar-se a liberdade, assim como a personagem de Elle e seu medo do desconhecido junto à intensidade de sua bravura. 


Zan tem certa curiosidade para acordar sua rebeldia reprimida, mas também tem que lidar com a responsabilidade de salvar a sua raça da sensação e do sentimento de não estarem protegidos, apresentando a eles a aversão à individualidade e às regras, fazendo valer a pena sua jornada de amadurecimento e da sua descoberta do primeiro amor. O filme falha na execução de sua proposta quanto ao punk como uma fuga à normalidade e em sua dualidade diante da relação de regras e liberdade; apesar de apresentar e quebrar essas ideias o tempo todo, fazer com que os personagens gritem "Punk!" a cada atitude tomada durante a história, não a torna tão revolucionária quanto tenta ser. A adaptação entrega uma narrativa que faz constantes metáforas com o contexto apresentado; a liberdade é oferecida aos gritos pela musica 'punk rock' como uma forma expressiva da juventude. 

A fotografia em certos momentos torna-se totalmente irregular, junto a isso, o longa entrega um enquadramento totalmente experimental e diversificado. Existe no mise-en-scène uma certa preocupação com a iluminação cenográfica, com foco em sua paleta de cores neutras ou primárias, em contraposição ao figurino do elenco, que é composto por cores vibrantes e distorcidas. Apesar de ser uma experiência visual atrativa e criativa, o longa é preso à uma temática que não consegue ser desenvolvida e torna-se previsível durante sua jornada. Mesmo tendo grandes nomes no elenco e na produção, o roteiro acaba por entregar o seu tema principal - o cenário punk e o romance dos personagens Zan e Enn - de forma confusa e pouco desenvolvida.


Título Original: How To Talk To Girls At Parties

Diretor: John Cameron Mitchell

Elenco: Alex Sharp, Elle Fanning, Nicole Kidman, Ruth Wilson, Matt Lucas

Sinopse: ​No Reino Unido do fim dos anos 1970, Enn, um jovem tímido e fã da nova febre punk, está pronto para se apaixonar. Até que ele conhece a etérea Zan, que acredita que o punk vem “de uma outra colônia”, uma de muitas pistas de que ela talvez não seja desse planeta. Uma história sobre o nascimento do punk, a exuberância do primeiro amor e o maior de todos os mistérios do universo: como conversar com garotas em festas? 

Trailer:


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Matheus Pestana

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