Crítica: Estradeiros (2011, de Sergio Oliveira e Renata Pinheiro)


Gosto de pensar no poder que certos documentários tem... Há uma capacidade bem peculiar de conseguir captar a essência da verdade, que nenhuma atuação, por mais verossímil que seja, conseguiria fazê-lo. Com este documentário, Estradeiros, não poderia ser diferente. Dirigido pela talentosa dupla composta por Sergio Oliveira e Renata Pinheiro, este documentário vem mostrar uma tribo que não se encaixa em nenhuma outra, mas que mesmo assim não deixa de sê-lo.
   
Com lindas paisagens, que vão desde cânions, passando por mares, estradas margeadas por neve e ainda grandes centros urbanos, a essência da película é justamente mostrar o universo da tribo em questão: pessoas que abandonaram o sistema capitalista para viverem sua suposta liberdade, viajando por vários lugares, tentando ao máximo se conectar com a natureza, com os animais e com a essência de si mesmas.


Com certeza você já deve ter visto por aí, esta espécie de hippies que vende artesanatos, geralmente adornos, vive viajando, com roupas simples, geralmente mais sujas e surradas, cabelos desgrenhados e/ou com dreadlocks, a maioria sem uma moradia fixa e com pouco ou nenhum apego a bens materiais e/ou status social/financeiro, se sustentando basicamente com a venda das artes manuais para compra de um cigarro, uma bebida e uma alimentação simples.


É possível ainda conferir muitos lugares na película... Vários cantos do Brasil, com sotaques diversos de nosso idioma, alguns lugares da América do Sul, com o espanhol sendo falado de algumas maneiras diferentes e ainda temos um integrante deste mundo apartado falando um inglês com sotaque (que eu não soube bem identificar qual).


É forte ainda o sentimento de comunidade mostrado em algumas partes do longa, reforçando a ideia de revolta contra um sistema que hoje prega tanto a individualidade do ser, recheado por tecnologias que nos sugam até a alma. Interessante ver que em todo o tempo a tecnologia é altamente criticada pelos estradeiros, que sempre buscam pela vida mais simples possível que puderem ter.


Há que se destacar a fotografia que capta a beleza intrínseca das paisagens bem como a naturalidade de ações e ainda closes de rostos e corpos. Há ainda partes em que sobreposições rupestres são feitas, dando um ar ainda mais rústico às cenas. A trilha sonora é essencial para a construção das cenas, passando desde o instrumental com batuques e cordas até musicas latinas com levada bem dançante. O movimento da câmera remetendo a quem observa a janela de um veículo é presente em grande parte do filme, nos passando a sensação dos próprios viajantes.

Destaca-se também os movimentos de câmera que mostram inversão da paisagem, algo que pode representar o ideal da tribo em questão: viver invertidamente, face os preceitos do sistema. 


Deus me livre de viver uma vida normal.


O longa, contudo, não parece querer entregar porquês para explicar a vida dos estradeiros, mas sim, confeccionar um retrato dos cotidianos, nos colocando para pensar em nossas vidas, na liberdade que pensamos ter, nesse suposto conforto de uma vida de auto escravidão. Senti falta desta explicação, porém não cabe à película atender aos meus anseios, e sim, passar sua própria mensagem. Um pequeno destaque negativo fica para as filmagens feitas ao entardecer e/ou ao anoitecer, com uma luz que não nos ajuda a visualizar melhor a cena como todo, mesmo que isso deva ser algo proposital: ser o mais natural possível, em consonância com o modo de vida dos protagonistas.




Título Original: Estradeiros

Direção: Sergio Oliveira e Renata Pinheiro

Elenco: estradeiros de várias partes da América Latina.



Sinopse: ESTRADEIROS é um documentário de longa metragem sobre uma tribo nômade que ocorre em grande parte do Brasil e também da America Latina. Constituída por indivíduos de diversas origens, os integrantes dessa tribo vestem-se de maneira muito peculiar com roupas puídas, quase sempre sujas, cabelos desgrenhados e andam quase sempre a pé. Vendem suas artes em práticos mostruários de tecido que carregam por todos os lugares por onde passam. Utiliza uma narrativa que interpreta a geografia, a organização política e social, a mitologia e a (possível) cosmogonia de uma tribo que, diga-se de passagem, não se reconhece como tal.

Mais informações técnicas aqui.


Trailer:


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Eduarda Souza

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