Crítica: Nada a Perder: Contra Tudo. Por Todos. (2018, de Alexandre Avancini)




Envolto por "mistérios" acerca de sua pomposa bilheteria (que foi acompanhada por dezenas de salas vazias) e ainda pela nota alta que perdurara no IMDb por um bom tempo, Nada a Perder: Contra Tudo. Por Todos., vem contar a história do Bispo Edir Macedo, um dos líderes religiosos de maior expressão no Brasil. Disponibilizado na Netflix recentemente, o longa possui muitos pontos negativos. Muitos. Mas há alguma coisa ou outra que acaba se destacando positivamente. Curioso (a)? Segura na mão de Deus e vai...

Logo no início, vemos a cena da prisão de Edir Macedo, o grande chamariz do trailer para este filme. A partir de então, somos conduzidos anos antes para acompanhar a trajetória de Macedo. Uma criança com uma leve deficiência nas mãos, que sofria bullying dos colegas, era um dos filhos de uma família fervorosamente católica, mas que se pegava questionando o suposto deus a quem "servia". Anos mais tarde, vemos Edir já crescido, um jovem rapaz bastante incrédulo, que só passou a acreditar em Deus quando viu sua irmã sendo curada de asma.



Desde então, Edir colocou em seu coração que serviria a Deus com todo seu ser e que teria uma vida reta. Decidiu terminar um namoro "pecaminoso", se dedicou fielmente à igreja que frequentava e engatou um novo relacionamento com uma moça cristã (que mais tarde viria a ser sua esposa e mãe de seus filhos).

Entretanto, para Edir, aquilo não bastava e ele via a necessidade de falar às pessoas. Não obtendo autorização do pastor da igreja a qual frequentava e muito menos apoio de seu cunhado Romildo, hoje o icônico Missionário R.R. Soares, ele decidiu começar a pregar em um coreto. E assim, sua igreja, a Universal do Reino de Deus, foi tomando forma, crescendo cada dia mais, ao ponto de incomodar tanto políticos quanto um expressivo líder católico, que mancomunaram uma investida contra o bispo, alegando que o mesmo era charlatão, atentava contra à crença popular e tinha um balanço financeiro da igreja duvidoso. Neste meio tempo, vemos ainda a conturbada compra da Rede Record feita por Macedo à ilustre figura brasileira: Silvio Santos.



Se eu já não soubesse algumas partes dessa história toda, confesso que ficaria no mínimo intrigada para conferir tudo o que aconteceu com o famoso bispo. E até fiquei, porém já sabia que o que me esperava não podia ser dos melhores filmes que vi em minha vida. Do mesmo diretor de Os Dez Mandamentos – O Filme, este longa possui muitos destaques negativos, a começar pelo roteiro. É tão raso que é melhor tomar cuidado com o mergulho para não se machucar. E não é por que não tinham história. História tinham, e muita! A preocupação aqui mais parece a de querer fazer uma propaganda político-religiosa do que realmente contar uma boa história. Há um desperdício de talentos, como o de Eduardo Galvão e Dalton Vigh, por exemplo, com personagens fracos. As atuações, de forma geral, também em nada ajudam. Talvez, o que tenha um pouco mais de destaque é o veterano Petrônio Gontijo, acompanhado da também saudosa Beth Goulart e, ainda, do ator que interpreta Silvio Santos (uma surpresa interessante). E acaba por aí. Há momentos do filme em que a vergonha alheia é tanta, que é preciso segurar para não rir em cenas mais dramáticas. Talvez a que esteja pior em cena é Day Mesquita, que interpreta a esposa do bispo, Ester Bezerra. Sua interpretação é rasa, fraca e sem emoção.



E por falar nela, não consigo enfiar até agora na minha cabeça o relacionamento que ela manteve (e mantém) com Edir Macedo. Mesmo que a tentativa foi de mostrar Macedo mais santo do que realmente é, há uma cena em que o machismo dele beira ao ridículo, sendo que Ester se questiona se realmente deve continuar com Edir, ao que o mesmo contrapõe, da forma mais vergonhosa e injustificável possível, que eles devem continuar juntos.  E ficam... Talvez uma das cenas, de fato, mais tristes do filme.

Vale ressaltar também que, na vida real, R. R. Soares e Edir Macedo não se bicam. Irônico que líderes religiosos tenham esse comportamento, não é?! Pior ainda, é saber que os dois são cunhados. E o que o filme faz com essa informação? Sim, santifica Macedo e demoniza R. R. Soares. O resultado é risível e para mim só faltaram os chifrinhos no ator André Gonçalves, que interpreta R. R. Soares.



Acerca dos pontos positivos, podemos destacar a fotografia, a ambientação e ainda os figurinos. Como o filme abraça o espaço de tempo da década de 60 até os anos 90, fica evidente a passagem dos anos, também ajudada pelas manchetes de época. Um dever de casa bem feito.

Há ainda duas cenas que são muito bonitas e que me encantaram de certa forma. A primeira é quando Macedo vai iniciar seu trabalho de evangelização e decide ir para um coreto, onde, sem saber o que dizer, decide apenas cantar uma das canções de maior expressão de fé no meio cristão:


Se as águas do mar da vida quiserem te afogar 

Segura na mão de Deus e vai

Se as tristezas desta vida quiserem te sufocar 

Segura na mão de Deus e vai

Segura na mão de Deus, segura na mão de Deus 

Pois ela, ela te sustentará
Não temas, segue adiante e não olhes para trás 

Segura na mão de Deus e vai

E a cena em que uma multidão de fiéis, em frente à prisão onde Macedo se encontra, decide em um ato pacífico apenas entoar louvores em apoio ao bispo. É uma cena muito bonita, mesmo que muito mal aproveitada.


Em suma, o que vemos é um material que poderia ser muito bom, sim, por que não?, mas que se perde em meio à exaustiva tentativa de santificar ao máximo o homem em questão. Não justifica a alta bilheteria e muito menos a alta nota no IMDb que teve em seu lançamento, sendo inclusive comparado a clássicos do cinema como A Forma da Água e O Poderoso Chefão. Recentemente, entretanto, foi incluído como um dos 100 piores filmes da história do IMDb, talvez algo mais justo para película.

E prepare o coração: esta foi apenas a primeira parte... A segunda parte está prevista para 2019!


Título Original: Nada a Perder: Contra Tudo. Por Todos. 

Direção: Alexandre Avancini

Elenco: Petrônio Gontijo, Day Mesquita, Beth Goulart, Dalton Vigh, André Gonçalves, Marcelo Airoldi, Greta Antoine, Enzo Barone, Eduardo Galvão, Otávio Martins, André Garolli, José Victor Pires, Raphael Viana, Camila Czerkes.

Sinopse: Cinebiografia autorizada do bispo evangélico Edir Macedo (Petrônio Gontijo), empresário fundador e líder espiritual da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da Record TV. Baseado nos livros da trilogia homônica, conta a história do self made man que enfrentou diversos momentos de turbulência enquanto perseguia sua convicção.

Trailer:


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Eduarda Souza

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