Crítica: Arábia (2018, de Affonso Uchoa)



Às vezes, simplesmente, é necessário sair de sua zona de conforto, e o cinema frequentemente exerce a função de lhe causar tal efeito. É difícil, tanto quanto contestável, saber se foi essa necessidade que inspirou o diretor Affonso Uchoa a escrever, em conjunto com João Dumans (também diretor), uma obra que não só te leva para as terras áridas e sem lei do nosso país, como também leva à uma realidade inegavelmente verdadeira e que assola os covis mais escuros da classe operária.

Arábia conta a história de André (Murilo Caliari), que ao se deparar com a notícia de que um dos amigos de sua tia, o operário Cristiano (Aristides de Sousa), sofreu um acidente, ruma à casa do enfermo em busca de roupas para levar ao seu leito. Porém, a curiosidade irrefreável do menino ao encontrar um diário repleto de anotações faz com que ele volte ao recinto, e nesse ponto, outra história nasce, os flashbacks e a narração se encontram e o filme enfim caminha para sua premissa principal: a vida de um brasileiro, um homem na estrada, pouco conhecida e marginalmente desdenhada, mas que abriga grandes lições.


É possível presenciar a jornada de Cristiano passando por maus bocados em distintas cidades e empregos, onde seu único objetivo era receber para se manter vivo, conhecendo pessoas que inevitavelmente mudam seu caráter e alteram seu destino. Sua angústia, que parece nunca ter fim, encontra salvação nos braços calorosos do amor, também chamados de Ana (Renata Cabral), mulher pela qual se apaixona em mais uma de suas empreitadas. Mas para um mulambo que conheceu as ardis do trabalho rural e que quebrou pedra até que o suor escorresse e transformasse todo pó em cimento, parecia difícil acreditar que o mundo uma vez havia facilitado as coisas para ele; dessa forma, Aristides de Souza acaba sendo a melhor escolha para incorporar esse personagem. O ator não advém de grande fama nem papéis memoráveis, mas é isso que cria a aura que Arábia precisa. Todo o elenco pode ser tido como “gente como a gente” e suas interpretações são tão naturais que o glamour que normalmente envolve produções com orçamentos exorbitantes, some, dando espaço para a aproximação do público com a obra, e vice-versa.


A fotografia é um espetáculo à parte, e em conjunto com a trilha sonora, que remete sucessos da MPB como Maria Bethânia, e do rap nacional com a música do grupo Racionais MC’s, “Homem na Estrada” (interpretada de forma memorável e nunca antes vista), o filme margeia todas as possibilidades do casamento perfeito entre som e imagem, de forma eclética, também alternando entre clássicos do samba, bossa-nova e folk americano, sempre trazendo à fotografia o gosto doce, mas também amargo, da realidade expressa pelas letras, criando uma onda de sensação interminável ao público, um verdadeiro deleite aos sinais.


Contudo, toda a graça entregue a nós pelas mãos dos diretores, Affonso Uchoa e João Dumans, e também pelas interpretações de todo o elenco, guardam, intrinsecamente, um significado bem maior e árduo, o filme do seu começo, até os minutos finais, contém uma presença material que não é vivida por ninguém, muito menos indicada por linhas do roteiro. A indústria metalúrgica de Ouro Preto, local onde as pontas soltas da história se encontram, é como um fantasma nebuloso e carregado do mais substancial perigo; ela paira sobre as cabeças de todos, desde a fuligem acumulada na soleira da janela de André até, como sendo o motivo de Cristiano ter perdido a consciência e ido ao hospital. Dessa forma, o filme, mesmo sem vilão, tem um, e esse arco se desprende a todos os empregos que nele são mostrados, verdadeiros catalisadores da miséria humana e dos desvios do sucesso. As luzes então se acendem, os créditos descem, e tudo acaba da mesma forma que começou. Entendam que isso não é spoiler, pois no Brasil parece não existir conto de fadas ou histórias como a de Cristiano, que mesmo acontecendo por baixo de nossos narizes parecem intragáveis, e dessa forma, desejamos acreditar num futuro esperançoso, mas esquecemos que nossa terra engole tudo que ela julga como inferior.


Titulo Original: Arábia

Direção: Affonso Uchoa e João Dumans

Elenco: Aristides de Sousa, Murilo Caliari, Renata Cabral, Renan Rovida, Wederson Neguinho e mais.

Sinopse: Em Ouro Preto, Minas Gerais, um jovem (Murilo Caliari) encontra por acaso o diário de um operário metalúrgico que sofreu um acidente e por suas memórias embarca numa jornada pelas condições de vida de trabalhadores marginalizados.

Trailer:


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Matheus Valencia

Interessado por cinema, não o bastante para ter assistido todos os filmes do mundo, mas o bastante para poder falar sobre eles.

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