Crítica: Lady Bird: A Hora de Voar (2018, de Greta Gerwig)


Filmes sobre amadurecimento são recorrentes em Hollywood, os chamados "coming-of-age", mas a maioria deles tem algo em comum, o protagonista ser um homem. Lady Bird: A Hora de Voar veio para mudar um pouco isso e mostrar o amadurecimento feminino de uma maneira sincera e honesta.



Lady Bird (Saoirse Ronan) é uma adolescente comum da pacata cidade de Sacramento, na Califórnia. Cansada da vida na sua cidade natal, Lady Bird sonha em fazer uma faculdade bem longe dali, já que ela não se enquadra em nenhum dos padrões que aquela sociedade impõe para ela. Contrariando sua mãe (Laurie Metcalf) o tempo todo, Lady Bird vive todas as incertezas da adolescência e todos os anseios que uma garota no final do Ensino Médio vive, primeiro amor, brigas familiares, introdução no mercado de trabalho e conflitos consigo mesma.



Existem filmes que sentimos que foram feitos com amor, sabe? Que existe alma e capricho em cada detalhe. Lady Bird: A Hora de Voar é um desses filmes.

A direção e o roteiro de Greta Gerwig são de encher os olhos, em todos os sentidos. Sua direção é cuidadosa e consegue extrair de cada ator o seu melhor, além de dosar muito bem as cenas de comédia e as cenas de drama, sem se aprofundar em subtemas desnecessários e dando profundidade para os personagens certos.



O roteiro é uma das principais qualidades do filme, Greta sabia exatamente o que estava fazendo e onde queria chegar. Existe um equilíbrio entre os tons do filme, a Lady Bird é complexa e cheia de camadas, todos os anseios da adolescência são retratados com muita verdade, as amizades, as primeiras paixões, as relações difíceis e contraditórias com a família, os sonhos e as frustrações que o mercado de trabalho podem trazer e o amadurecimento inevitável que passamos ao fim da adolescência, tudo está lá e é impossível não se identificar. Os diálogos são marcantes e escritos cuidadosamente por Greta, fazendo os embates de Lady Bird e sua mãe serem o ponto alto do filme, com as duas atrizes fazendo trabalhos extraordinários.



Nostalgia é um elemento complicado, quase sempre é usado sem inteligência ou sem conteúdo, mas Greta usa a nostalgia aqui com muita sabedoria. O roteiro é tão preciso nesse aspecto que não tem como você não se transportar para dentro do filme e não relembrar a adolescência. Não há esteriótipos aqui, todos os personagens e todas as situações são reais e sinceras.

A edição do longa acerta em não se prolongar em nenhuma das cenas, tudo está no seu devido lugar e não há tempo para se perder com "encheção de linguiça". A trilha sonora é bonita e levanta os filmes nos momentos certos e a fotografia acerta sem inventar muito.



Saoirse Ronan entrega uma performance complexa e cheia de camadas, ela permeia entre a acidez da rebeldia, os momentos cômicos e vai para as cenas dramáticas naturalmente, sem maneirismos e exageros, é tudo feito com naturalidade e talento. A cena do "please talk to me" é um exemplo clássico disso, Ronan sabe usar muito bem sua carga dramática sem ficar apelando. Realmente acreditamos que ela é uma adolescente americana e mesmo com as oscilações de sua personagem, ela gera empatia do público logo no começo do filme. Laurie Metcalf também se mostra muito talentosa, os embates que ela tem com a Saoirse geram cenas de cortar o coração e uma das cenas finais dela enchem os olhos com a grandeza da sua performance. Tracy Letts faz o papel do pai, seu trabalho é contido e ele consegue convencer com a melancolia no pouco espaço que tem. Lucas Hedges tem uma ótima química com Saoirse Ronan e está super bem no filme. Tomothée Chalamet tem pouco espaço, mas é incrível sua versatilidade, seu personagem não parece nada com o seu trabalho aclamado em Me Chame Pelo Seu Nome, aqui, ele é desprezível e até seu tom de voz está diferente. Beanie Feldstein tem um ótimo timing cômico e muito dos momentos engraçados do filme se devem a ela.



Existe uma razão para Lady Bird: A Hora de Voar fazer tanto sucesso com os críticos e receber 5 indicações ao Oscar, ele é excelente em todos os aspectos, ele conversa bem com todos os públicos por ter um roteiro realista e sincero, além de ter personagens deliciosos e performances memoráveis.



Título Original: Lady Bird.

Direção: Greta Gerwig.

Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Timothée Chalamet, Lucas Hedges, Tracy Letts, Beanie Feldstein, Marielle Scot, Jordan Rodrigues, Stephen Henderson, Lois Smith, Laura Marano, Odeya Rush, Jake McDorman, John Karna e Kathryn Newton.

Sinopse: Christine McPherson está no último ano do colégio e o que mais deseja é ir fazer faculdade longe de Sacramento, Califórnia, ideia rejeitada por sua mãe. Lady Bird, como a garota de forte personalidade exige ser chamada, não se dá por vencida e leva o plano de ir embora adiante mesmo assim. Enquanto a hora não chega, ela se divide entre as obrigações estudantis no colégio católico, o primeiro namoro, típicos rituais de passagem para a vida adulta e inúmeros desentendimentos com a mãe.

                                  Trailer:






Yago Tanaka

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