Crítica: A Babá (2017, de McG)


O gênero de terror está em uma posição muito interessante hoje em dia; já teve sua ascensão, glória e supersaturação entre os anos 70 e 90 e é hoje muitas vezes deixado de lado quando comparado a outros tipos de filmes. Muitas de suas franquias de sucesso na época como Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo e Chucky – O Boneco Assassino também seguiram essa lógica: iniciaram-se como um thriller relativamente sério, expandiram o conceito e acabaram se levando ao território de auto-paródia ao perceber que após cair no imaginário do público, os monstros deixam de ser assustadores.

Como consequência disso, as obras atuais mudaram um pouco o foco; os tais monstros e entidades físicas não funcionam mais tanto quanto antigamente. It - A Coisa foi um exemplo de sucesso, mas mesmo assim grande parte do público não o considerou tão assustador, elogiando muito mais o carisma dos personagens do que a tensão criada pelo antagonista. Os produtores de Hollywood decidiram então focar suas forças no mundo espiritual, vide os milhares de suspenses com espíritos e demônios lançados todo ano, apenas esperando pacientemente por sua saturação. Como ficam os slashers, então? O subgênero mais clichê, assumidamente bobinho e um dos mais divertidos do terror? Bom, A Babá está aqui como um exemplo de direção que estes podem tomar, muito mais focada em um humor próprio e auto-referente.



O filme conta a história de Cole, um pré-adolescente que sempre fica com um pé atrás em relação a tudo; tem medo de agulhas, aranhas, de enfrentar os valentões (engraçadíssimos, aliás) que pegam no seu pé e até de ter aulas de direção com o pai... Nem sua mãe nega para o próprio filho que este é um pouco medroso. Apesar de todo esse cuidado e de ser uma criança muito responsável para sua idade, o garoto é também o único da faixa-etária que ainda possui uma babá, Bee. O que não é ruim na verdade, já que os dois se dão muito bem juntos e passam o dia se divertindo com discussões nerds cheias de referências e reencenando cenas de filmes. Tudo muda, no entanto, quando certa noite Cole decide ficar acordado até um pouco mais tarde e descobre que Bee e seus amigos adolescentes fazem parte de uma espécie de culto satânico no qual eles assassinam pessoas para terem seus desejos realizados.

A direção fica a cargo de McG, que simplesmente desconhece a palavra sutilidade; o currículo do autor inclui "neoclássicos" como os dois As Panteras e Exterminador do Futuro - A Salvação, o homem é insano. É incontestável, porém, que A Babá não funcionaria tão bem se executado por alguém que se leva a sério demais ou se preocupa em estabelecer um equilíbrio entre razão e emoção em seus filmes. Como mencionado, os slashers são, geralmente, clichês e bobinhos, não funcionam quando se esforçam demais para criar um clima sério de suspense; no início do subgênero isso ainda não estava claro mas, felizmente, hoje já foi zoado o suficiente para que até uma criança saiba criticar os clássicos Sexta-Feira 13.


Com uma noção muito grande disso, o diretor abusa de seu conhecimento com o cinema galhofa para transformar o roteiro já não tão sutil de Brian Duffield, responsável por (pasmem) um dos capítulos da saga Divergente, em um festival de momentaneidades e exageros muito eficiente. Há um foco muito grande, principalmente no primeiro ato, em utilizar a linguagem cinematográfica de formas nada sutis e criar vários momentos que destoam entre si em tom e execução mas que agradam o espectador pela criatividade demonstrada. A primeira cena utiliza efeitos sonoros e close-ups de uma maneira formalista o suficiente para transformar uma agulha em um instrumento mortal, a segunda apresenta o título da obra com um freeze-frame hilário, a terceira deixa todo o cenário de fundo em câmera lenta e mais à frente há uma sequência inteira filmada em primeira pessoa.

Essa montagem episódica pode parecer incômoda, porém ajuda a manter o espectador focado e já prepara o terreno para o segundo ato do roteiro, quando os amigos adolescentes de Bee descobrem que Cole os avistou e resolvem, um por um, tentar matá-lo. O que temos em mãos é, então, uma espécie de subversão do slasher: enquanto nos clássicos o monstro antagonista executava os adolescentes um por um, aqui o garoto protagonista enfrenta os adolescentes antagonistas um por um. Se a ideia de um pré-adolescente se defendendo contra jovens-adultos com quase o dobro da idade parece idiota pra você, se prepare, pois o conceito é uma das coisas menos absurdas do filme. O miolo da obra é justo esse, adolescentes com personalidades idiossincráticas o suficiente para criar piadas ao redor do modo como agem sendo enfrentados de maneira episódica por uma criança, que apenas tem chance devido a alguns truques de roteiro absurdos.


Esses truques não são uma falha de forma alguma, muito pelo contrário, divertem pra caramba. As mortes são quase todas hilárias, seja pela impossibilidade da situação, pelos diálogos enquanto ocorrem, pelo formalismo à la Raimi ou pelas atuações propositalmente canastronas. Isso é o que mais difere A Babá dos slashers clássicos, na verdade; os antigos também possuíam essas mesmas características, entretanto pareciam se levar a sério demais, enquanto o novo ri de si mesmo e também de suas inspirações. Grande exemplo disso é o roteiro que praticamente inclui furos e inconsistências apenas para divertir os mais atentos: uma cena envolvendo policiais é especialmente ridícula, mas também destaco a forçação de barra que é a não existência dos vizinhos e o retorno de um personagem sem razão alguma que não seja nos brindar com seu timing cômico perfeito.

Timing cômico é o que não falta nos atores, muito bem dirigidos (ou seria muito mal dirigidos?) para que atuem como se estivessem em um clássico da Sessão da Tarde. Apesar dos pais, interpretados por Leslie Bibb e Ken Marino fazerem um bom trabalho passando a inocência pelo mundo ao seu redor clássica dos pais da ficção, o maior elogio na parte das atuações vai com certeza para os vilões: Andrew Bachelor tem pouco tempo de tela, mas parece estar se divertido mais do que tudo com seu ridiculamente esteriotipado John, sobra piada até para o movimento Black Lives Matter; Hana Mae Lee quase nem pisca como a psicótica Sonya, que parece ter saído direto do pesadelo de uma criança de 6 anos; Robbie Amell é basicamente o personagem de Christian Bale de Psicopata Americano e Bella Thorne, a mais divertida, grita como nunca gritou na vida.


Se o segundo ato da obra é o que mais diverte devido ao esforço coletivo das atuações dos vilões, a conclusão acaba decepcionando bastante. Note que não mencionei as atuações de Judah Lewis e Samara Weaving, respectivamente; o protagonista, Cole, e antagonista principal, Bee. Judah está bem para um ator mirim, porém em um filme em que todos os atores aparentam estar rindo por dentro, parece um pouco deslocado e Samara até faz um olhar inquietante às vezes, mas não cria quase nenhuma mania para seu personagem, sendo resumida a serial killer genérica. O terceiro ato, ainda por cima, foca muito em um conflito pessoal entre os dois, que não funciona porque se encontra em um filme sem carga dramática alguma até aquele momento.

A Babá me divertiu muito, e se você adora um bom trash provavelmente também divertirá você. É um filme complexo e dramático, que exigiu muita inteligência e cuidado por parte dos produtores? Não, aliás até entendo se alguns defenderem a ideia de que é na verdade muito mal feito; porém, o humor constante gerado pelos exageros tanto das atuações quanto das técnicas utilizadas por McG (os jumpscares falsos são geniais) entrega uma experiência que vale muito a pena.


Título Original: The Babysitter


Direção: McG



Elenco: Samara Weaving, Judah Lewis, Bella Thorne, Robbie Amell, Andrew Bachelor, Emily Alyn Lind, Hana Mae Lee.



Sinopse: Cole é loucamente apaixonado por Bee, sua babá. Até que o garoto acaba descobrindo que ela na verdade é uma assassina adoradora do Diabo. Com isso, para que não revele o segredo, Cole está na mira da babá e seus amigos.



Trailer

E você? Também se divertiu com os exageros do filme? Deixe sua opinião aí nos comentários.

Jônatas Iwata

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